Convergindo para o tema da coluna da semana passada, que revelava que os Top Ten de Rock, Alternative Rock e Metal divulgados pelo Spotify eram compostos basicamente por velharia, uma pesquisa da Skynet & Ebert, blog dirigido por um ex-consultor de gestão que atualmente trabalha na Spotify EUA, revelou um dado curioso sobre costumes dos ouvintes do programa de streaming: a maioria das pessoas para de ouvir música nova depois dos 33 anos.

Segundo a análise do Skynet & Ebert, a molecada quando começa a ouvir música segue o padrão ditado pelas paradas de sucesso, pela moda e por tudo que está na mídia. Dá-lhe Justin Bieber, One Direction, Katy Perry, Miley Cyrus, Taylor Swift, Imagine Dragons, David Guetta, Rihanna e muitos outros, que abastecem o cotidiano adolescente de novas canções (e polêmicas), sendo que boa parte delas não diz absolutamente nada para os trintões.

Num segundo momento, mais propriamente quanto o adolescente ingressa na faculdade, e começa a interagir com outras pessoas, culturas e novidades, seu gosto muda e ele deixe as paradas de sucesso para outros moleques e começa a desbravar o maravilhoso mundo da música indie, procurando artistas que muita gente nunca ouviu falar, e preparando mixtapes para animar festas, embalar romances ou mesmo sonorizar pés na bunda.

O terceiro momento na pesquisa é exatamente quando o ouvinte se desconecta das novidades depois dos 30 anos, e começa a buscar suas próprias raízes, ouvindo muitas vezes os mesmos artistas que ouvia na adolescência, quando não descobrindo bandas ícones, que muitas vezes já tinham acabado quando ele nasceu, mas, movido pela nostalgia, o ouvinte aperta o botão da máquina do tempo, entra na zona de conforto, e se desconecta do novo.

Outro ponto interessante da pesquisa revela que país de família costumam mudar seus gostos musicais mais cedo, como se o adaptassem para o cotidiano com filhos. Segundo o autor, é neste momento em que as músicas de ninar invadem a playlist do ouvinte, competindo com tudo aquilo que ele trouxe na bagagem até então. Ou seja, sai Alabama Shakes, Strokes, Black Sabbath e Nirvana e entra Galinha Pintadinha.

Dados como esses explicam, por exemplo, a esperteza dos organizadores do Superbowl, que na última edição escalaram para o show do intervalo (uma das principais exposição na mídia que um artista pode ter nos Estados Unidos durante o ano) Missy Elliot e Katy Perry. “Acho legal que um punhado de crianças (que nunca ouviu meu nome) irá pensar que sou uma artista nova, ainda que eu tenha 20 anos de carreira”, brincou Elliot em seu Twitter.

Chocando essa análise da Skynet & Ebert, baseada em dados do Spotify EUA, com a lista de canções mais tocadas no Spotity Brasil (nas categoria Rock, Alternative e Metal), seria possível cravar, com pouca margem de erro, que o público que usa o programa de streaming no Brasil é bastante adulto, já deixou as novidades de lado, e prefere a mesma música que ouvia nos anos 90, quando era adolescente e o rock hoje antigo era novo.

“Se” a análise seguir esse padrão como regra, as coisas não estão tão ruins quanto se imagina, porque ainda que as rádios brasileiras, as grandes gravadoras e canais de TV, talvez os principais divulgadores de novidades culturais, tenham abandonado o novo e optado pela reciclagem do mais do mesmo, existe uma molecada ouvindo música nova em algum lugar, chocando ideias e pensando sobre o mundo que os cerca.

Nos comentários da coluna da semana passada, muita gente reclamou dizendo que não há nada novo interessante (ignorando os discos de Death Cab For Cutie, Alabama Shakes, Godspeed You! Black Emperor, Will Butler e Palma Violets entre muitos outros) e que “bom mesmo é rock antigo”, como se o rock antigo não tivesse sido novo em algum momento, e se essa mesma apatia flagrada agora acontecesse 20 anos atrás, provavelmente o rock novo da época fosse estigmatizado como sem qualidade, como fazem com a música de hoje.

A questão, importante salientar, não tem nada a ver com deixar de ouvir rock antigo, muito pelo contrário. Existem uma tonelada de grandes discos dos anos 50, 60, 70, 80, 90 e 00 que devem ser ouvidos e valorizados, mas a coisa toda complica quando mesmo esses antigos são ignorados em prol de uma seleção de eleitos que, muitas vezes, contradiz o próprio ouvinte, afinal não deixa de ser irônico que uma música que ataca a apatia (“Smells Like a Teen Spirit”) lidere um ranking que cristaliza apatia.

Em 1996, a jornalista Ana Maria Bahiana, em um texto de página inteira no jornal O Estado de São Paulo, questionava de modo brilhante e irreparável: “Será que mais uma geração caiu nas garras da arteriosclerose do ‘classic rock’, cujo sintoma mais grave é essa mania de ouvir apenas o que já foi ouvido antes, e sempre cobrar de seus artistas favoritos que eles não mudem nunca?”. E ela mesma dava a receita:

“Eu, por mim, recomendo a qualquer um - de 16, 21, 30, 45, 55 anos - que, ao menos uma vez por semana, escute algo que jamais pensaria escutar. E, certamente, algo que fuja dos padrões daquilo que as gravadoras determinaram ser "apropriado" para sua faixa etária – um ouvinte de 16 anos tem tanto a se beneficiar com uma audição de ‘A Nod Is as Good as a Wink’, dos Faces, quanto um de 55 do disco do Kula Shaker. É um santo remédio, o equivalente a uma corrida no calçadão, uma hora de malhação, uma partida de basquete: o suficiente para manter os ouvidos flexíveis, o cérebro desentupido, o coração palpitante e prevenir a instalação - muitas vezes precoce - do reumatismo estupidificante do classic rock.”

É inevitável se sentir seduzido pela zona de conforto, mas aposentar o cérebro tão cedo soa arriscado demais. Ouvir apenas o que já foi ouvido antes parece criar uma geração que não tem paciência para o novo, e se desculpa dizendo “que tudo está uma porcaria” sem ter parado um minuto sequer para ouvir uma banda nova ou mesmo uma música nova de uma velha banda. Desta forma estamos enterrando num túmulo possíveis hits do futuro, que não tem nem a chance de mostrar o seu valor.

Assim, se você tem 33 anos (ou mais), seria legal que entre um Red Hot Chilli Peppers, um Foo Fighters e um Black Sabbath surgisse em suas playlists algo dos discos novos de Alabama Shakes, Refused, Metz e Palma Violets, por exemplo. O choque do novo fará você pensar, fazer conjecturas, ligações (“Isso soa como algo que eu ouvia” ou mesmo “nunca ouvi algo assim, mas é legal”) movimentando seus pensamentos. Ainda que muita gente acredite que a música tenha sido boa apenas em sua própria adolescência, a história prova o contrário. Basta a você descobrir isso.







Marcelo Costa nasceu em São Paulo, mas cresceu em Taubaté, interior do Estado, formando-se em Comunicação Social na Unitau, em 1998. Vive em São Paulo desde 2000, mesmo ano em que colocou no ar a primeira versão online do Scream & Yell, um dos principais sites independentes de cultura pop do país, e já passou pelas redações do Noticias Populares, Zip.Net, UOL, Terra e iG além de colaborar para as revistas Billboard Brasil, Rolling Stone, GQ Brasil, entre outras

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